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Dois do Brasil 22 Música & Cultura

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crônicas sobre "mpb"



Segue abaixo duas deliciosas crônicas do Ruy Castro sobre o assunto "música popular brasileira", do qual é reconhecido e autorizado conhecedor, que me chamaram muito a atenção dada a relevância dos temas e a propriedade da argumentação (publicadas na fsp este mês).

“Tômara” que chova não é coisa que se diga em São Paulo, onde o que não tem faltado é chuva, mas Tomara que Chova, a marchinha de Romeu Gentil e Paquito, finalmente encontrou quem a cante direito: “Tomára que chova/ Três dias sem parar...” – e não “Tômara que chova/ etc...”, como a querida Emilinha Borba decretou no Carnaval de 1951 e nunca teve quem a corrigisse. Agora, graças ao elenco do ótimo musical Sassaricando, a tônica pousou na sílaba certa.

Atropelos como esse vivem acontecendo. Não fosse Ronaldo Bôscoli, então seu produtor e namorado, e Maysa teria imortalizado O Barquinho, em 1961, cantando “Diá de luz, festa de sol/ E um barquinho a deslizar/ No macio azul do mar...”. Bôscoli argumentou com propriedade – afinal, era o autor da letra – que não existe ‘diá’, existe ‘dia’. Maysa estrilou ao ser corrigida, mas acatou e poupou-se de uma gafe histórica.

Gafe essa da qual não se livrou o próprio João Gilberto, ao cantar ‘Madame tem um párafuso a menos/ Só fala veneno, meu Deus, que horror’, em Pra Que Discutir com Madame, o grande samba de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa. De fato, a frase musical leva a que se cante “párafuso”, mas, com esse acento esdrúxulo, como acusar alguém de ter um parafuso a menos?

Para não falar em Vinicius de Moraes, impecável na métrica e no verso livre, mas que cantava: “Se vôce quer ser minha namorada/ Ah, que linda namorada/ Vôce póderia ser...”. Seu parceiro Carlinhos Lyra, com ouvido de músico, chamava-lhe a atenção para esses passos em falso. Em vão: Vinicius levou a vida cantando Minha Namorada com os acentos errados.

Todo mundo, um dia, escorrega no acento e enfatiza a sílaba errada: cantor, jornalista, empresário, ministro, presidente. A graça está em disfarçar e rir do erro alheio.

[gostaria de acrescentar um exemplo bem evidente, - já pensou se em "Tarde em Itapuã" trocarem um acento no verso depois de "e numa esteira de vime..."]

"Mais que MPB"

Outro dia, numa reunião do Museu da Imagem e do Som, aqui no Rio, alguém sugeriu que o MIS, já pioneiro dos museus do gênero no Brasil, banisse de seus documentos e discussões a sigla MPB. E, até pedagogicamente, voltasse a usar as palavras certas: Música Popular Brasileira.

Ué, dirá você, não é a mesma coisa? MPB não é apenas uma abreviatura de “Música Popular Brasileira”? Antes cêsse, mas não ésse. Quando foi criada, por volta de 1965 ou 1966, significava um tipo de música então emergente, que não se sabia bem o que era – mas já não era bossa nova, não queria mais ser o samba e, muito menos, iê-iê-iê.

Seu primeiro produto, ainda sem o rótulo, pode ter sido ‘Arrastão’, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Logo vieram ‘Lunik 9’, de Gilberto Gil, ‘Upa, neguinho’, de Edu e Guarnieri, ‘Roda Viva’, de Chico Buarque, e outras que, com um certo ‘conteúdo’ em comum, também não se encaixavam em nenhum gênero familiar. Donde só podiam ser ‘MPB’.

Quando a ‘MPB’ minguou, dois ou três anos depois, a sigla sobreviveu e começou a ser aplicada – até hoje – a toda música produzida no Brasil, do padre José Mauricio ao padre Marcelo e de Chiquinha Gonzaga ao É o Tchan. Com isso, deseducaram-se várias gerações quanto à memória da nossa diversidade rítmica, até então classificada por sambas (em suas mil variações), marchas, choros, baiões, frevos, valsas, foxes,baladas, cocos etc. Virou tudo ‘MPB’.

Mas não para sempre, espero. Se o exemplo do MIS vingar, vamos passar a chamar ‘Garota de Ipanema’ de samba, ‘Alegria, Alegria’, de marchinha, ‘Domingo no Parque’, de baião, ‘Travessia’, de toada, ‘Caminhando’, de guarânia, ‘Mania de Você’, de rumba, ‘Beatriz’, de valsa, ou ‘Como uma Onda’, de bolero. Que, muito mais que ‘MPB’, é o que eles são.

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